terça-feira, 10 de outubro de 2017

SOBRE CULTURA DO IMAGINÁRIO DEISTA


Existem muitas variantes sobre o famoso mito de Narciso. Fiz uma miscelânea de algumas delas.

Narciso era um rapaz dotado de beleza. Seus pais, o Deus do rio Cefiso e a ninfa Liríope, dias antes de seu nascimento, resolveram consultar o oráculo Tirésias para saber qual seria o destino do menino. E a revelação foi enfática: teria vida longa desde que nunca viesse a contemplar sua propria imagem. 

O garoto cresceu, e tornou-se um jovem de grande feição, despertando paixões tanto em homens quanto em mulheres. Contudo, arrogante e orgulhoso.

Menosprezava todas as ninfas e jovens que, por ele, incondicionalmente se atraiam por sua beleza viril. Um jovem chamado Amínias, perdido de paixão e rejeitado por Narciso, ironicamente ganha deste uma espada de presente e com a qual suicida-se a seus pés rogando aos deuses que lhe dessem uma lição por toda a dor que Narciso lhe fizera sofrer.

Certo dia, Narciso passando às margens de um lago calmo de águas límpidas decide referescar-se. No instante em que abaixa a cabeça para tocar a água, percebe seu reflexo e, fascinado de paixão por ele, mata-se ao perceber que jamais poderia conquistar a si mesmo. 

O que isso diz de nosso imaginário deista, idealizado segundo nossa vontade e representação? 



quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Espiritas manifestai-vos!!!

                 
                   Diferentemente de muitos colegas, acho absolutamente plausível, pertinente e correta a opinião do André Marouço à atual situação política mundial. Por sermos espíritas não quer dizer que deixemo-nos largados sob os discursos passivos de "Deus é quem sabe". Nosso pai nos dá o talento para que possamos fazer dele o que pudermos de melhor e dentro de suas leis. Se a ultrapassamos é por nossa conta e por nossa responsabilidade única. Desse modo, o silenciamento não constrói, não avança.
                 Se Jesus (nosso modelo e guia moral) tivesse silenciado,  toda sua jornada teria sido infrutífera. Jesus era o mais falador o mais opinador. Falava e opinava sobre tudo. Entretanto, sabia o que falava e de sua boca jorravam luzes. E ele mesmo dizia: - Vós sois uma candeia. Erga-se para iluminar a todos. Em outras palavras, dizia: Não seja egoísta guardando o conhecimento e a sabedoria da justiça apenas para você mesmo. Reparta!.  Jesus em sua grandiosidade silenciou-se apenas diante de seus torturadores, pois, contrariar-lhes seria uma perda de tempo forçando-o a utilizar-se de métodos contraditórios ao que sempre firmara aos outros enquanto filho homem. Diante da mulher sendo apedrejada, o sublime juiz diz: Porque jogam pedra nessa mulher? E os apedrejadores respondem: - Porquê ela é uma prostituta e pecadora. Ao que ele novamente indaga: - Quem aqui nunca tiver pecado, que então atire a primeira pedra.  Se compararmos Jesus com muitos de meus colegas espíritas igrejistas, veremos que Jesus intervém na cena por amor e consideração colocando-se diante dos injustos justiceiros. O espírita, na mesma circunstância, simplesmente olha a cena calado e e pede a Deus para que tenha misericórdia da alma daquela mulher que está em momento de resgate de provas. Enquanto um age o outro apenas pensa.
              Do mesmo modo que Jesus, se Gandhi silenciasse, a Índia não seria liberta do terrível sistema de castas ou da opressão Inglesa. Se Mandela Silenciasse não sairia da prisão cheio de vida. Entrentanto, calado, sua fala e ação era a "não-violencia". Sua reação era amorosa. Assim sendo, Silenciar significa, definitivamente, omitir ponto de vista em favor da paz e da harmonia entre os homens. Significa ficar quieto, feito uma estátua introvertida, como se já desencarnado não "filho do homem". Silenciar de verdade é, em meio à ação, manter a coerência com o princípios que se propõe a seguir. Significa, nesse caso, omitir opinião ou calar-se diante das atrocidades por que se tem de "aguentar" a provação "calado". Esse igrejismo auto-flagelista de ordem medieval, só nos leva à obsessão, achando que Deus seja eternamente penoso sobre nós. Como se fosse um senhor nos vendo e eternamente triste pelo que fazemos. Ora essa!!! Deus não age contra suas leis, logo sua misericórdia é aplicada à todos os que se lhe a pedem (não porque a merecem, mas porque começaram a "querer" merecer. Assim, a misericórdia divina é antes uma carta branca para que possamos recomeçar a jornada), entretanto jamais turva os ditames do princípio de causa-efeito.
               Como dizem os espíritos na questão 932 do LE, nosso destino de ser bom ou mal é construido por nós mesmos. Se desejarmos um mundo bom, devemos ser ousados, nos unir e reivindicar por meio de nossas práticas benevolentes um mundo melhor. Por que o mal, se utiliza gradativamente de todos os seus meios absolutamente criativos, para que esse mundo ainda seja um mundo de mal, provas e expiações,  "mundo de escândalos". Entretanto, dizermo-nos bons, silenciando diante das trevosas ramificações malignas é a mesma coisa que concordar com elas. Hitler contou com o apoio de milhões de Alemães fascinados a ele e outros milhões de outros países que o subjugaram, vendo em sua figura, nada mais, nada menos, que uma caricatura de "bigodinho ridículo".
                 Ordenado e coerente, André Marouço foi, é, e deve continuar a expressar sua opinião em face da doutrina, acerca do mundo atual, como vemos no vídeo acima. Sua postura é perfeita e coerente, não se submetendo à análises infrutíferas, que desqualifiquem a lógica da doutrina cristã rediviva. Se somos verdadeiramente Cristãos devemos ser à favor do enlaçamentos de todos os povos, construção das tolerâncias e compreensão das diferenças culturais. Qualquer que seja aquele que expressa ódio em seu discurso ou proclama a injustiça justiceira, carrega consigo a lástima de tudo o que jamais, em sua consciência, gostaria de carregar muito bem sintetizado na frase de Jesus: "pai perdoa-lhe que eles não sabem o que fazem".
                Saber dizer sim e não às atitudes nossas e alheias. Saber confrontar coerentemente o evangelho com a prática das nossas atitudes. Elevando, erguendo em ação física e material nossa pequena luz. Isso é o que nos cabe fazer diante das dúvidas do mundo. Trabalhar para paz e para sanar as discrepâncias das nossas relações sociais sem nunca esquecer que estamos sendo ajudados pela espiritualidade superior que dirige essa grande escola da vida.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015



REFLEXÃO ACERCA DO VÍDEO DO PATINHO FEIO




O filme visto cria um conflito, mas não o resolve. Aliás, até resolve. Mas, resolve de forma a criar um discurso um tanto duvidoso.

Através da comoção e do sensacionalismo começa nos mostrando o quanto a "natureza" é nua e crua. Mostra-nos o quanto os animais adultos são separatistas e valorizam apenas as exterioridades. Enlaça-nos a perceber como os animais pequenos copiam os adultos em seus exemplos e acabam assim por se tornarem também adultos exteriores. E por fim reforça o discurso de que, na natureza, cada qual vive conforme seu quadrado e que o ideal da convivência e relação encontra-se nos iguais.
Entretanto essa natureza aparentemente representada no filme pelo reino animal irracional, não representam apenas os animais irracionais, mas uma metáfora de seres humanos. Os seres humanos, por mais que sejam animais, não são irracionais e muito menos vivem pelo instinto. Assim, o que podemos concluir é que uma mente infantil, despreparada da critica (experiência intelectual), diante desse filme lançar-se-á à concluir que as pessoas são nuas e cruas e que a sociedade é separatista e que não há esperança para união dos diferentes. Podemos afirmar isso considerando que uma mente infantil não desconfia, afirma pelo exemplo que recebe.  
Se tomamos a infância como uma etapa da vida humana sensível à programações. Ou seja, etapa de inserção e amadurecimento do individuo no meio social que “registra” tudo o que lhe é informado, como uma preparação para o amanhã. Veremos que o filme é, na verdade feito justamente para elas. Programação de sujeitos futuros. Por isso não tem nada de ingênuo, mas, muito pelo contrário. Aliás, o maior problema dos filmes infantis é achar que eles apresentam índices da percepção infantil.
Os filmes infantis são produzidos por mentes adultas, que sabem perfeitamente o que querem dizer com cada imagem que colocam para serem vistas.  E cada vez mais se investe na capacidade de verossimilhança das representações fílmicas para que elas (as crianças) acreditem no que veem. Sem falar nas inserções subliminares, por vezes aumenta exorbitantemente as produções. Desse modo, em contato com essas representações as crianças refletirão atitudes futuras perfeitamente em conformidade o mundo que nós adultos criamos e reforçamos a todo instante.
As crianças precisam saber que os animais se aniquilam. Sim. Sem problemas com isso. Entretanto, é preciso fazê-las compreender que eles o fazem porque vivem pelo instinto. Apenas isso. Nada mais. Isso é ciência. E mostrar que somos muito mais que um conjunto de instinto e matéria é obrigação que nos move à fé. Isso é filosofia espiritualista.
O filme, porém, apesar de bonitinho não mostra isso. Ele nada mais faz que afirmar a segregação racial.  Ou seja, se você é branco, que fique com os brancos, e só vai encontrar sua felicidade junto aos brancos. Contente-se e conviva com isso pacificamente. Mas não se misture.
Essas mentes produtoras não fazem isso por acaso. No fundo, julgam ser a segregação racial um modelo ideal tendo-as em conformidade às leis da natureza animal, levando à cabo a supremacia do instinto e aproveitando-se delas (das leis) para justificar o controle e manipulação das formas de poder de um ser sobre outro ser.
Alguém pode responder o que humanidade tem feito para contornar o impulso instintivo da competitividade?
A lei do mais forte que rege as relações de instinto e sobrevivência das espécies no reino animal, quando aplicada às nossas, justifica nada mais nada menos que o uso de nossa inteligência não na construção de situações de igualdade, mas de contextos e tecnologias que possibilitem a exploração ou aniquilamento de nossos semelhantes. Em muitos países ditos desenvolvidos isso é comum. O que ocorre lá é que se você não compete você não tem chance. E não basta competir para sobrevier. Tem que ganhar.  Para eles a natureza humana é assim.

A teoria liberal, por exemplo, nada mais é do que o reconhecimento disso. A partir dessa teoria engendramos em nossas formas de viver noções rigidas do que é privado, individual e coletivo. A decorrência disso é o sistema neoliberal e animalizado em que estamos imersos até os cabelos.

domingo, 19 de outubro de 2014

Roberto Gurgel: tese sem provas

O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,mensalao-foi-mais-atrevido-e-escandaloso-caso-de-corrupcao-diz-gurgel-no-stf,910629
O “mais atrevido e escandaloso” crime de corrução da história do Brasil foi perpetrado por tês “quadrilhas”, diss no STF. Mas ele não provou nem a ocorrência do crime nem a existência das organizações criminosas.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Balanço do neoliberalismo

Balanço do neoliberalismo


Perry Anderson

Comecemos com as origens do que se pode definir como neoliberalismo enquanto fenômeno distinto do simples liberalismo clássico, do século passado. O neoliberalismo nasceu logo depois da II Guerra Mundial, na região da Europa e da América do Norte onde imperava o capitalismo. Foi uma reação teórica e política veemente contra o Estado intervencionista e de bem-estar. Seu texto de origem é O Caminho da Servidão, de Friedrich Hayek, escrito já em 1944. Trata-se de um ataque apaixonado contra qualquer limitação dos mecanismos de mercado por parte do Estado, denunciada como uma ameaça letal à liberdade, não somente econômica, mas também política. O alvo imediato de Hayek, naquele momento, era o Partido Trabalhista inglês, às vésperas da eleição geral de 1945 na Inglaterra, que este partido efetivamente venceria. A mensagem de Hayek é drástica: “Apesar de suas boas intenções, a social-democracia moderada inglesa conduz ao mesmo desastre que o nazismo alemão – uma servidão moderna”.
Três anos depois, em 1947, enquanto as bases do Estado de bem-estar na Europa do pós-guerra efetivamente se construíam, não somente na Inglaterra, mas também em outros países, neste momento Hayek convocou aqueles que compartilhavam sua orientação ideológica para uma reunião na pequena estação de Mont Pèlerin, na Suíça. Entre os célebres participantes estavam não somente adversários firmes do Estado de bem-estar europeu, mas também inimigos férreos do New Deal norte-americano. Na seleta assistência encontravam-se Milton Friedman, Karl Popper, Lionel Robbins, Ludwig Von Mises, Walter Eupken, Walter Lipman, Michael Polanyi, Salvador de Madariaga, entre outros. Aí se fundou a Sociedade de Mont Pèlerin, uma espécie de franco-maçonaria neoliberal, altamente dedicada e organizada, com reuniões internacionais a cada dois anos. Seu propósito era combater o keynesianismo e o solidarismo reinantes e preparar as bases de um outro tipo de capitalismo, duro e livre de regras para o futuro. As condições para este trabalho não eram de todo favoráveis, uma vez que o capitalismo avançado estava entrando numa longa fase de auge sem precedentes – sua idade de ouro –, apresentando o crescimento mais rápido da história, durante as décadas de 50 e 60. Por esta razão, não pareciam muito verossímeis os avisos neoliberais dos perigos que representavam qualquer regulação do mercado por parte do Estado. A polêmica contra a regulação social, no entanto, tem uma repercussão um pouco maior. Hayek e seus companheiros argumentavam que o novo igualitarismo (muito relativo, bem entendido) deste período, promovido pelo Estado de bem-estar, destruía a liberdade dos cidadãos e a vitalidade da concorrência, da qual dependia a prosperidade de todos. Desafiando o consenso oficial da época, eles argumentavam que a desigualdade era um valor positivo – na realidade imprescindível em si –, pois disso precisavam as sociedades ocidentais. Esta mensagem permaneceu na teoria por mais ou menos 20 anos.
A chegada da grande crise do modelo econômico do pós-guerra, em 1973, quando todo o mundo capitalista avançado caiu numa longa e profunda recessão, combinando, pela primeira vez, baixas taxas de crescimento com altas taxas de inflação, mudou tudo. A partir daí as idéias neoliberais passaram a ganhar terreno. As raízes da crise, afirmavam Hayek e seus companheiros, estavam localizadas no poder excessivo e nefasto dos sindicatos e, de maneira mais geral, do movimento operário, que havia corroído as bases de acumulação capitalista com suas pressões reivindicativas sobre os salários e com sua pressão parasitária para que o Estado aumentasse cada vez mais os gastos sociais.
Esses dois processos destruíram os níveis necessários de lucros das empresas e desencadearam processos inflacionários que não podiam deixar de terminar numa crise generalizada das economias de mercado. O remédio, então, era claro: manter um Estado forte, sim, em sua capacidade de romper o poder dos sindicatos e no controle do dinheiro, mas parco em todos os gastos sociais e nas intervenções econômicas. A estabilidade monetária deveria ser a meta suprema de qualquer governo. Para isso seria necessária uma disciplina orçamentária, com a contenção dos gastos com bem-estar, e a restauração da taxa “natural” de desemprego, ou seja, a criação de um exército de reserva de trabalho para quebrar os sindicatos. Ademais, reformas fiscais eram imprescindíveis, para incentivar os agentes econômicos. Em outras palavras, isso significava reduções de impostos sobre os rendimentos mais altos e sobre as rendas. Desta forma, uma nova e saudável desigualdade iria voltar a dinamizar as economias avançadas, então às voltas com uma estagflação, resultado direto dos legados combinados de Keynes e de Beveridge, ou seja, a intervenção anticíclica e a redistribuição social, as quais haviam tão desastrosamente deformado o curso normal da acumulação e do livre mercado. O crescimento retornaria quando a estabilidade monetária e os incentivos essenciais houvessem sido restituídos.
A hegemonia deste programa não se realizou do dia para a noite. Levou mais ou menos uma década, os anos 70, quando a maioria dos governos da OCDE – Organização Européia para o Comércio e Desenvolvimento – tratava de aplicar remédios keynesianos às crises econômicas. Mas, ao final da década, em 1979, surgiu a oportunidade. Na Inglaterra, foi eleito o governo Thatcher, o primeiro regime de um país de capitalismo avançado publicamente empenhado em pôr em prática o programa neoliberal. Um ano depois, em 1980, Reagan chegou à presidência dos Estados Unidos. Em 1982, Kohl derrotou o regime social liberal de Helmut Schmidt, na Alemanha. Em 1983, a Dinamarca, Estado modelo do bem-estar escandinavo, caiu sob o controle de uma coalizão clara de direita, o governo de Schluter. Em seguida, quase todos os países do norte da Europa ocidental, com exceção da Suécia e da Áustria, também viraram à direita. A partir daí, a onda de direitização desses anos tinha um fundo político para além da crise econômica do período. Em 1978, a segunda guerra fria eclodiu com a intervenção soviética no Afeganistão e a decisão norte-americana de incrementar uma nova geração de foguetes nucleares na Europa ocidental. O ideário do neoliberalismo havia sempre incluído, como componente central, o anticomunismo mais intransigente de todas as correntes capitalistas do pós-guerra. O novo combate contra o império do mal – a servidão humana mais completa aos olhos de Hayek – inevitavelmente fortaleceu o poder de atração do neoliberalismo político, consolidando o predomínio da nova direita na Europa e na América do Norte. Os anos 80 viram o triunfo mais ou menos incontrastado da ideologia neoliberal nesta região do capitalismo avançado.
O que fizeram, na prática, os governos neoliberais deste período? O modelo inglês foi, ao mesmo tempo, o pioneiro e o mais puro. Os governos Thatcher contraíram a emissão monetária, elevaram as taxas de juros, baixaram drasticamente os impostos sobre os rendimentos altos, aboliram controles sobre os fluxos financeiros, criaram níveis de desemprego massivos, aplastaram greves, impuseram uma nova legislação anti-sindical e cortaram gastos sociais. E, finalmente – esta foi uma medida surpreendentemente tardia –, se lançaram num amplo programa de privatização, começando por habitação pública e passando em seguida a indústrias básicas como o aço, a eletricidade, o petróleo, o gás e a água. Esse pacote de medidas é o mais sistemático e ambicioso de todas as experiências neoliberais em países de capitalismo avançado.
A variante norte-americana era bem distinta. Nos Estados Unidos, onde quase não existia um Estado de bem-estar do tipo europeu, a prioridade neoliberal era mais a competição militar com a União Soviética, concebida como uma estratégia para quebrar a economia soviética e, por esta via, derrubar o regime comunista na Rússia. Deve-se ressaltar que, na política interna, Reagan também reduziu os impostos em favor dos ricos, elevou as taxas de juros e aplastou a única greve séria de sua gestão. Mas, decididamente, não respeitou a disciplina orçamentária; ao contrário, lançou-se numa corrida armamentista sem precedentes, envolvendo gastos militares enormes, que criaram um déficit público muito maior do que qualquer outro presidente da história norte-americana. Mas esse recurso a um keynesianismo militar disfarçado, decisivo para uma recuperação das economias capitalistas da Europa ocidental e da América do Norte, não foi imitado. Somente os Estados Unidos, por causa de seu peso na economia mundial, podiam dar-se ao luxo do déficit massivo na balança de pagamentos que resultou de tal política.
No continente europeu, os governos de direita deste período – amiúde com fundo católico – praticaram em geral um neoliberalismo mais cauteloso e matizado que as potências anglo-saxônicas, mantendo a ênfase na disciplina orçamentária e nas reformas fiscais, mais do que em cortes brutais de gastos sociais ou enfrentamentos deliberados com os sindicatos. Contudo, a distância entre estas políticas e as da social-democracia governante anterior já era grande. E, enquanto a maioria dos países no norte da Europa elegia governos de direita empenhados em várias versões do neoliberalismo, no sul do continente – território de De Gaulle, Franco, Salazar, Fanfani, Papadopoulos, etc. –, previamente uma região muito mais conservadora politicamente, chegavam ao poder, pela primeira vez, governos de esquerda, chamados de euro-socialistas: Miterrand, na França; González, na Espanha; Soares, em Portugal; Craxi, na Itália; Papandreou, na Grécia. Todos se apresentavam como uma alternativa progressista, baseada em movimentos operários ou populares, contrastando com a linha reacionária dos governos de Reagan, Thatcher, Kohl e outros do norte da Europa. Não há dúvida, com efeito, de que pelo menos Miterrand e Papandreou, na França e na Grécia, genuinamente se esforçaram para realizar uma política de deflação e redistribuição, de pleno emprego e de proteção social. Foi uma tentativa de criar um equivalente no sul da Europa do que havia sido a social-democracia do pós-guerra no norte do continente em seus anos de ouro. Mas o projeto fracassou, e já em 1982 e 1983 o governo socialista na França se viu forçado pelos mercados financeiros internacionais a mudar seu curso dramaticamente e reorientar-se para fazer uma política muito próxima à ortodoxia neoliberal, com prioridade para a estabilidade monetária, a contenção do orçamento, concessões fiscais aos detentores de capital e abandono do pleno emprego. No final da década, o nível de desemprego na França socialista era mais alto do que na Inglaterra conservadora, como Thatcher se gabava amiúde de assinalar. Na Espanha, o governo de González jamais tratou de realizar uma política keynesiana ou redistributiva. Ao contrário, desde o início o regime do partido no poder se mostrou firmemente monetarista em sua política econômica: grande amigo do capital financeiro, favorável ao princípio de privatização e sereno quando o desemprego na Espanha rapidamente alcançou o recorde europeu de 20% da população ativa.
Enquanto isso, no outro lado do mundo, na Austrália e na Nova Zelândia, o mesmo padrão assumiu proporções verdadeiramente dramáticas. Sucessivos governos trabalhistas ultrapassaram os conservadores locais de direita com programas de neoliberalismo radical – na Nova Zelândia, provavelmente o exemplo mais extremo de todo o mundo capitalista avançado, desmontando o Estado de bem-estar muito mais completa e ferozmente do que Thatcher na Inglaterra.
O que demonstravam estas experiências era a hegemonia alcançada pelo neoliberalismo como ideologia. No início, somente governos explicitamente de direita radical se atreveram a pôr em prática políticas neoliberais; depois, qualquer governo, inclusive os que se auto-proclamavam e se acreditavam de esquerda, podia rivalizar com eles em zelo neoliberal. O neoliberalismo havia começado tomando a social-democracia como sua inimiga central, em países de capitalismo avançado, provocando uma hostilidade recíproca por parte da social-democracia. Depois, os governos social-democratas se mostraram os mais resolutos em aplicar políticas neoliberais. Nem todas as social-democracias, bem entendido. Ao final dos anos 80, a Suécia e a Áustria ainda resistiam à onda neoliberal da Europa. E, fora do continente europeu, o Japão também continuava isento de qualquer pressão ou tentação neoliberal. Mas, nos demais países da OCDE, as idéias da Sociedade de Mont Pèlerin haviam triunfado plenamente. Poder-se-ia perguntar qual a avaliação efetiva da hegemonia neoliberal no mundo capitalista avançado, pelo menos durante os anos 80. Cumpriu suas promessas ou não? Vejamos o panorama de conjunto. A prioridade mais imediata do neoliberalismo era deter a grande inflação dos anos 70. Nesse aspecto, seu êxito foi inegável. No conjunto dos países da OCDE, a taxa de inflação caiu de 8,8% para 5,2%, entre os anos 70 e 80, e a tendência de queda continua nos anos 90. A deflação, por sua vez, deveria ser a condição para a recuperação dos lucros. Também nesse sentido o neoliberalismo obteve êxitos reais. Se, nos anos 70, a taxa de lucro das indústrias nos países da OCDE caiu em cerca de 4,2%, nos anos 80 aumentou 4,7%. Essa recuperação foi ainda mais impressionante na Europa Ocidental como um todo, de 5,4 pontos negativos para 5,3 pontos positivos. A razão principal dessa transformação foi, sem dúvida, a derrota do movimento sindical, expressado na queda drástica do número de greves durante os anos 80 e numa notável contenção dos salários. Essa nova postura sindical, muito mais moderada, por sua vez, em grande parte era produto de um terceiro êxito do neoliberalismo, ou seja, o crescimento das taxas de desemprego, concebido como um mecanismo natural e necessário de qualquer economia de mercado eficiente. A taxa média de desemprego nos países da OCDE, que havia ficado em torno de 4% nos anos 70, pelo menos duplicou na década de 80. Também este foi um resultado satisfatório. Finalmente, o grau de desigualdade – outro objetivo sumamente importante para o neoliberalismo – aumentou significativamente no conjunto dos países da OCDE: a tributação dos salários mais altos caiu 20% em média nos anos 80, e os valores das bolsas aumentaram quatro vezes mais rapidamente do que os salários.
Então, em todos estes itens, deflação, lucros, empregos e salários, podemos dizer que o programa neoliberal se mostrou realista e obteve êxito. Mas, no final das contas, todas estas medidas haviam sido concebidas como meios para alcançar um fim histórico, ou seja, a reanimação do capitalismo avançado mundial, restaurando taxas altas de crescimento estáveis, como existiam antes da crise dos anos 70. Nesse aspecto, no entanto, o quadro se mostrou absolutamente decepcionante. Entre os anos 70 e 80 não houve nenhuma mudança – nenhuma – na taxa de crescimento, muito baixa nos países da OCDE. Dos ritmos apresentados durante o longo auge, nos anos 50 e 60, restam somente uma lembrança distante.
Qual seria a razão deste resultado paradoxal? Sem nenhuma dúvida, o fato de que – apesar de todas as novas condições institucionais criadas em favor do capital – a taxa de acumulação, ou seja, da efetiva inversão em um parque de equipamentos produtivos, não apenas não cresceu durante os anos 80, como caiu em relação a seus níveis – já médios – dos anos 70. No conjunto dos países de capitalismo avançado, as cifras são de um incremento anual de 5,5% nos anos 60, de 3,6% nos anos 70, e nada mais do que 2,9% nos anos 80. Uma curva absolutamente descendente.
Cabe perguntar por que a recuperação dos lucros não levou a uma recuperação dos investimentos. Essencialmente, pode-se dizer, porque a desregulamentação financeira, que foi um elemento tão importante do programa neoliberal, criou condições muito mais propícias para a inversão especulativa do que produtiva. Durante os anos 80 aconteceu uma verdadeira explosão dos mercados de câmbio internacionais, cujas transações, puramente monetárias, acabaram por diminuir o comércio mundial de mercadorias reais. O peso de operações puramente parasitárias teve um incremento vertiginoso nestes anos. Por outro lado – e este foi, digamos, o fracasso do neoliberalismo –, o peso do Estado de bem-estar não diminuiu muito, apesar de todas as medidas tomadas para conter os gastos sociais. Embora o crescimento da proporção do produto bruto nacional consumida pelo Estado tenha sido notavelmente desacelerado, a proporção absoluta não caiu, mas aumentou, de mais ou menos 46% para 48% do PNB médio dos países da OCDE durante os anos 80. Duas razões básicas explicam este paradoxo: o aumento dos gastos sociais com o desemprego, que custaram bilhões ao Estado, e o aumento demográfico dos aposentados na população, que levou o Estado a gastar outros bilhões em pensões.
Por fim, ironicamente, quando o capitalismo avançado entrou de novo numa profunda recessão, em 1991, a dívida pública de quase todos os países ocidentais começou a reassumir dimensões alarmantes, inclusive na Inglaterra e nos Estados Unidos, enquanto que o endividamento privado das famílias e das empresas chegava a níveis sem precedentes desde a II Guerra Mundial. Atualmente, com a recessão dos primeiros anos da década de 90, todos os índices econômicos tornaram-se muito sombrios nos países da OCDE, onde, presentemente, há cerca de 38 milhões de desempregados, aproximadamente duas vezes a população total da Escandinávia. Nestas condições de crise muito aguda, pela lógica, era de se esperar uma forte reação contra o neoliberalismo nos anos 90. Isso aconteceu? Ao contrário, por estranho que pareça, o neoliberalismo ganhou um segundo alento, pelo menos em sua terra natal, a Europa. Não somente o thatcherismo sobreviveu à própria Thatcher, com a vitória de Major nas eleições de 1992 na Inglaterra. Na Suécia, a social-democracia, que havia resistido ao avanço neoliberal nos anos 80, foi derrotada por uma frente unida de direita em 1991. O socialismo francês saiu bastante desgastado das eleições de 1993. Na Itália, Berlusconi – uma espécie de Reagan italiano – chegou ao poder à frente de uma coalizão na qual um dos integrantes era um partido oficialmente facista até recentemente. Na Alemanha, o governo de Kohl provavelmente continuará no poder. Na Espanha, a direita está às portas do poder.
Mas, para além desses êxitos eleitorais, o projeto neoliberal continua a demonstrar uma vitalidade impressionante. Seu dinamismo não está ainda esgotado, como se pode ver na nova onda de privatizações em países até recentemente bastante resistentes a elas, como Alemanha, Áustria e Itália. A hegemonia neoliberal se expressa igualmente no comportamento de partidos e governos que formalmente se definem como seus opositores. A primeira prioridade do presidente Clinton, nos Estados Unidos, foi reduzir o déficit orçamentário, e a segunda foi adotar uma legislação draconiana e regressiva contra a delinqüência, lema principal também da nova liderança trabalhista na Inglaterra. O temário político segue sendo ditado pelos parâmetros do neoliberalismo, mesmo quando seu momento de atuação econômica parece amplamente estéril ou desastroso. Como explicar esse segundo alento no mundo capitalista avançado? Uma de suas razões fundamentais foi claramente a vitória do neoliberalismo em outra área do mundo, ou seja, a queda do comunismo na Europa oriental e na União Soviética, de 89 a 91, exatamente no momento em que os limites do neoliberalismo no próprio Ocidente tornavam-se cada vez mais óbvios. Pois a vitória do Ocidente na guerra fria, com o colapso de seu adversário comunista, não foi o triunfo de qualquer capitalismo, mas o do tipo específico liderado e simbolizado por Reagan e Thatcher nos anos 80. Os novos arquitetos das economias pós-comunistas no Leste, gente como Balcerovicz na Polônia, Gaidar na Rússia, Klaus, na República Tcheca, eram e são seguidores convictos de Hayek e Friedman, com um menosprezo total pelo keynesianismo e pelo Estado de bem-estar, pela economia mista e, em geral, por todo o modelo dominante do capitalismo ocidental do período pós-guerra. Estas lideranças políticas preconizam e realizam privatizações muito mais amplas e rápidas do que haviam sido feitas no Ocidente. Para sanear suas economias, aceitam quedas de produção infinitamente mais drásticas do que haviam sido aceitas no Ocidente. E promovem graus de desigualdade – sobretudo de empobrecimento da maior parte da população – muito mais brutais do que tínhamos visto nos países do Ocidente.
Não há neoliberais mais intransigentes no mundo do que os “reformadores” do Leste. Dois anos atrás, Vaclav Klaus, primeiro-ministro da República Tcheca, atacou publicamente o presidente do Federal Reserve Bank dos Estados Unidos no governo Reagan, Allan Greenspan, acusando-o de demonstrar debilidade e frouxidão lamentáveis em sua política monetária. Em artigo para a revista The Economist, Klaus foi incisivo: “O sistema social da Europa ocidental está demasiadamente amarrado por regras e pelo controle social excessivo. O Estado de bem-estar, com todas as suas transferências de pagamentos generosos desligados de critérios, de esforços ou de méritos, destrói a moralidade básica do trabalho e o sentido de responsabilidade individual. Há excessiva proteção e burocracia. Deve-se dizer que a revolução thatcheriana, ou seja, antikeynesiana ou liberal, parou – numa avaliação positiva – no meio do caminho na Europa ocidental e é preciso completá-la”. Bem entendido, esse tipo de extremismo neoliberal, por influente que seja nos países pós-comunistas, também desencadeou uma reação popular, como se pôde ver nas últimas eleições na Polônia, na Hungria e na Lituânia, onde partidos ex-comunistas ganharam e agora governam de novo seus países. Mas, na prática, suas políticas no governo não se distinguem muito daquela de seus adversários declaradamente neoliberais. A deflação, a desmontagem de serviços públicos, as privatizações de empresas, o crescimento de capital corrupto e a polarização social seguem, um pouco menos rapidamente, porém com o mesmo rumo. A analogia com o euro-socialismo do sul da Europa é evidente. Em ambos os casos há uma variante mansa – pelo menos no discurso, senão sempre nas ações – de um paradigma neoliberal comum na direita e na esquerda oficial. O dinamismo continuado do neoliberalismo como força ideológica em escala mundial está sustentado em grande parte, hoje, por este “efeito de demonstração” do mundo pós-soviético. Os neoliberais podem gabar-se de estar à frente de uma transformação sócio-econômica gigantesca, que vai perdurar por décadas.
O impacto do triunfo neoliberal no leste europeu tardou a ser sentido em outras partes do globo, particularmente, pode-se dizer, aqui na América Latina, que hoje em dia se converte na terceira grande cena de experimentações neoliberais. De fato, ainda que em seu conjunto tenha chegado a hora das privatizações massivas, depois dos países da OCDE e da antiga União Soviética, genealogicamente este continente foi testemunha da primeira experiência neoliberal sistemática do mundo. Refiro-me, bem entendido, ao Chile sob a ditadura de Pinochet. Aquele regime tem a honra de ter sido o verdadeiro pioneiro do ciclo neoliberal da história contemporânea. O Chile de Pinochet começou seus programas de maneira dura: desregulação, desemprego massivo, repressão sindical, redistribuição de renda em favor dos ricos, privatização de bens públicos. Tudo isso foi começado no Chile, quase um decênio antes de Thatcher, na Inglaterra. No Chile, naturalmente, a inspiração teórica da experiência pinochetista era mais norte-americana do que austríaca. Friedman, e não Hayek, como era de se esperar nas Américas. Mas é de se notar que a experiência chilena dos anos 70 interessou muitíssimo a certos conselheiros britânicos importantes para Thatcher, e que sempre existiram excelentes relações entre os dois regimes nos anos 80. O neoliberalismo chileno, bem entendido, pressupunha a abolição da democracia e a instalação de uma das mais cruéis ditaduras militares do pós-guerra. Mas a democracia em si mesma – como explicava incansavelmente Hayek – jamais havia sido um valor central do neoliberalismo. A liberdade e a democracia, explicava Hayek, podiam facilmente tornar-se incompatíveis, se a maioria democrática decidisse interferir com os direitos incondicionais de cada agente econômico de dispor de sua renda e de sua propriedade como quisesse. Nesse sentido, Friedman e Hayek podiam olhar com admiração a experiência chilena, sem nenhuma inconsistência intelectual ou compromisso de seus princípios. Mas esta admiração foi realmente merecida, dado que – à diferença das economias de capitalismo avançado sob os regimes neoliberais dos anos 80 – a economia chilena cresceu a um ritmo bastante rápido sob o regime de Pinochet, como segue fazendo com a continuidade da política econômica dos governos pós-Pinochet dos últimos anos.
Se o Chile, nesse sentido, foi a experiência-piloto para o novo neoliberalismo dos países avançados do Ocidente, a América Latina também proveu a experiência-piloto para o neoliberalismo do Oriente pós-soviético. Aqui me refiro, bem entendido, à Bolívia, onde, em 1985, Jeffrey Sachs já aperfeiçoou seu tratamento de choque, mais tarde aplicado na Polônia e na Rússia, mas preparado originariamente para o governo do general Banzer, depois aplicado imperturbavelmente por Victor Paz Estenssoro, quando surpreendentemente este último foi eleito presidente, em vez de Banzer. Na Bolívia, no fundo da experiência não havia necessidade de quebrar um movimento operário poderoso, como no Chile, mas parar a hiperinflação. E o regime que adotou o plano de Sachs não era nenhuma ditadura, mas o herdeiro do partido populista que havia feito a revolução social de 1952. Em outras palavras, a América Latina também iniciou a variante neoliberal “progressista”, mais tarde difundida no sul da Europa, nos anos de euro-socialismo. Mas o Chile e a Bolívia eram experiências isoladas até o final dos anos 80.
A virada continental em direção ao neoliberalismo não começou antes da presidência de Salinas, no México, em 88, seguida da chegada ao poder de Menem, na Argentina, em 89, da segunda presidência de Carlos Andrés Perez, no mesmo ano, na Venezuela, e da eleição de Fujimori, no Peru, em 90. Nenhum desses governantes confessou ao povo, antes de ser eleito, o que efetivamente fez depois de eleito. Menem, Carlos Andrés e Fujimori, aliás, prometeram exatamente o oposto das políticas radicalmente antipopulistas que implementaram nos anos 90. E Salinas, notoriamente, não foi sequer eleito, mas roubou as eleições com fraudes.
Das quatro experiências viáveis desta década, podemos dizer que três registraram êxitos impressionantes a curto prazo – México, Argentina e Peru – e uma fracassou: Venezuela. A diferença é significativa. A condição política da deflação, da desregulamentação, do desemprego, da privatização das economias mexicana, argentina e peruana foi uma concentração de poder executivo formidável: algo que sempre existiu no México, um regime de partido único, com efeito, mas Menem e Fujimori tiveram de inovar na Argentina e no Peru com uma legislação de emergência, autogolpes e reforma da Constituição. Esta dose de autoritarismo político não foi factível na Venezuela, com sua democracia partidária mais contínua e sólida do que em qualquer outro país da América do Sul, o único a escapar de ditaduras militares e de regimes oligárquicos desde os anos 50. Daí o colapso da segunda presidência de Carlos Andrés.
Mas seria arriscado concluir que somente regimes autoritários podem impor com êxito políticas neoliberais na América Latina. A Bolívia, onde todos os governos eleitos depois de 1985, tanto de Paz Zamora, quanto de Sanchez Losada, continuaram com a mesma linha, está aí para comprovar o oposto. A lição que fica da longa experiência boliviana é esta: há um equivalente funcional ao trauma da ditadura militar como mecanismo para induzir democrática e não coercitivamente um povo a aceitar políticas neoliberais das mais drásticas. Este equivalente é a hiperinflação. Suas conseqüências são muito parecidas. Recordo-me de uma conversa que tive no Rio de Janeiro, em 1987, quando era consultor de uma equipe do Banco Mundial e fazia uma análise comparativa de cerca de 24 países do Sul, no que tocava a políticas econômicas. Um amigo neoliberal da equipe, sumamente inteligente, economista destacado, grande admirador da experiência chilena sob o regime de Pinochet, confiou-me que o problema crítico no Brasil durante a presidência de Sarney não era uma taxa de inflação demasiado alta – como a maioria dos funcionários do Banco Mundial tolamente acreditava –, mas uma taxa de inflação demasiado baixa. “Esperemos que os diques se rompam”, ele disse, “precisamos de uma hiperinflação aqui, para condicionar o povo a aceitar a medicina deflacionária drástica que falta neste país”. Depois, como sabemos, a hiperinflação chegou ao Brasil, e as conseqüências prometem ou ameaçam – como se queira – confirmar a sagacidade deste neoliberal indiano.
A pergunta que está aberta é se o neoliberalismo encontrará mais ou menos resistência à implementação duradoura dos seus projetos aqui na América Latina do que na Europa ocidental ou na antiga União Soviética. Seria o populismo – ou obreirismo – latino-americano um obstáculo mais fácil ou mais difícil para a realização dos planos neoliberais do que a social-democracia reformista ou o comunismo? Não vou entrar nesta questão, uma vez que outros aqui podem julgar melhor do que eu. Sem dúvida, a resposta vai depender também do destino do neoliberalismo fora da América Latina, onde continua avançando em terras até agora intocadas por sua influência. Atualmente, na Ásia, por exemplo, a economia da Índia começa, pela primeira vez, a ser adaptada ao paradigma liberal, e até mesmo o Japão não está totalmente imune às pressões norte-americanas para abolir regras. A região do capitalismo mundial que apresenta mais êxitos nos últimos 20 anos é também a menos neoliberal, ou seja, as economias do extremo oriente – Japão, Coréia, Formosa, Cingapura, Malásia. Por quanto tempo estes países permanecerão fora da esfera de influência do neoliberalismo? Tudo que podemos dizer é que este é um movimento ideológico, em escala verdadeiramente mundial, como o capitalismo jamais havia produzido no passado. Trata-se de um corpo de doutrina coerente, autoconsciente, militante, lucidamente decidido a transformar todo o mundo à sua imagem, em sua ambição estrutural e sua extensão internacional. Eis aí algo muito mais parecido ao movimento comunista de ontem do que ao liberalismo eclético e distendido do século passado.
Nesse sentido, qualquer balanço atual do neoliberalismo só pode ser provisório. Este é um movimento ainda inacabado. Por enquanto, porém, é possível dar um veredicto acerca de sua atuação durante quase 15 anos nos países mais ricos do mundo, a única área onde seus frutos parecem, podemos dizer assim, maduros. Economicamente, o neoliberalismo fracassou, não conseguindo nenhuma revitalização básica do capitalismo avançado. Socialmente, ao contrário, o neoliberalismo conseguiu muitos dos seus objetivos, criando sociedades marcadamente mais desiguais, embora não tão desestatizadas como queria. Política e ideologicamente, todavia, o neoliberalismo alcançou êxito num grau com o qual seus fundadores provavelmente jamais sonham, disseminando a simples idéia de que não há alternativas para os seus princípios, que todos, seja confessando ou negando, têm de adaptar-se a suas normas. Provavelmente nenhuma sabedoria convencional conseguiu um predomínio tão abrangente desde o início do século como o neoliberal hoje. Este fenômeno chama-se hegemonia, ainda que, naturalmente, milhões de pessoas não acreditem em suas receitas e resistam a seus regimes. A tarefa de seus opositores é a de oferecer outras receitas e preparar outros regimes. Apenas não há como prever quando ou onde vão surgir. Historicamente, o momento de virada de uma onda é uma surpresa.



ANDERSON, Perry In SADER, Emir & GENTILI, Pablo (orgs.) Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995, p. 9-23.

A um amigo acerca do acidente em Santa Maria-RS

Quem nunca tiver pecado, que atire a próxima pedra!

Considerações a um amigo virtual acerca do acidente em Santa Maria - RS

Amigo Estéfano, realmente tudo isso é muito doloroso. Porém, não diria que a lei de causa e efeito seja para punir. Diria antes, que ela é o ancoradouro do equilíbrio e da harmonia suprema do universo servente  a nosso dispor no processo de elevação.

Todos vimos a este mundo com uma missão muito clara. Todos sabemos perfeitamente o quê, quando, onde e como nos ocorrerá o retorno. Porém, como isso só está gravado apenas em nosso inconsciente (memoria do espírito), vamos levando a vida com o doce e maravilhoso esquecimento do passado. Somente na esteira cotidiana do sono profundo, quando deixamos nossa veste carnal largada ao restabelecimento de forças anímicas e volvemos olhar libertador ao plano da espiritualidade - nosso mundo original - é que, conforme mérito e estado vibracional, podemos dialogar e refletir acerca do tempo que nos resta, condições de prova etc.

Isso justifica o fato de muitos, dias ou horas antes do desencarne, mostrarem-se tristes e depressivos e outros, de modo contrário, em estado de alegria, como  que se despedindo; organizando as coisas, colocando tudo em dia para viajar. Em geral, os primeiros ficam tristes e até desesperados porque apegados aos fortes laços carnais que os jungem com a materialidade por meio de inclinações viciosas e sentimentos inferiores, desde já começam a pressentir as forças negativas que o circundam e sua impossibilidade de entrada em planos superiores de regeneração. Forças que eles mesmos criaram para si pela simples ação de escolha na liberdade suprema de arbítrio. Outros, porém, apresentam tristeza não pelo aspecto negativo  de inferioridade, mas pelo simples fato de ter que enfrentar o desafio da qualidade da prova a que deverão passar. A dor e, principalmente o a dor emocional de fazer os outros passarem pela dor, faz com que essas pessoas antecipem desculpas, medo e sentimento de remorso.

Os laços que se constroem por meio de ligações fluídicas entre nós, enquanto espíritos encarnados e desencarnados, jamais se apagam e é bem provável sim que tais espíritos irmãos que ocuparam no passado corpos na pátria alemã e que, por circunstâncias sociais das mais diversas, serviram a mando nazista na 2ª grande guerra, tenham reencarnado no Brasil nos últimos 30 anos. E é bem possível também que muitos pudessem estar no interior daquela boate. E por que não? Mas não nos interessa esmiuçar o assunto. Apenas nos cabe refletir no fato de que muitas das coisas a que consideramos más são, por perspectivas diferentes, boas. A lei de causa e efeito é enfática. "Faça ao outros o que gostaria que fizessem a você". 

Mas o Brasil é a grande pátria do resgate mundial, porque aqui nós nos misturamos e nos amamos de forma mais perfeita, como uma grande família. Negros, brancos, amarelos, pardos, indianos, egípcios, arianos, mouros, norte americanos, hebreus, árabes, cristão, mulcumanos, todos convivendo com naturalidade e no esforço em domar nossas inclinações pestilentas do passado que certamente fôramos muito ao contrário do que defendemos hoje. Porque a cada oportunidade de reencarnação tornamos nossa vida – quando assim primamos para o bem -, um conjunto de melhorias e conquistas inimagináveis. Todos que nascemos e nascermos nesse país, temos uma parcela de trabalho com vistas a torná-lo o grande berço da verdadeira prática do evangelho de Jesus. Assim precisamos nos preparar para recebermos em futuro próximo milhões de irmãos necessitados de amor e consolo espiritual. 

Desse modo, todos os irmãos que passaram por tal prova coletiva e outros demais que ainda estão nos leitos de hospitais, cada um, quando em pretérito pré-encarnatório, diante do remorso e da consciência do erro, lançara-se a esse ato de amor e entrega como forma de quitar com a própria consciência em trauma. Enquanto cá choramos, por ainda não aprender a sorrir diante da dor, reforçando assim a verdadeira fé que deveríamos ter (e provamos cada vez mais que não a temos), quando na oração dominical dizemos a nosso pai: “que seja feita a vossa vontade, tanto na terra como no céu”, lá eles sorriem e são recebidos de braços abertos, do mesmo modo a que recebemos familiares e amigos quando no retorno para casa. 

Não nos cabe, desse modo, julgar quem quer que seja pelas mazelas cometidas no passado e no presente. Não podemos nos esquecer que ainda estamos em um mundo de provas e expiações, apesar das transformações para um mundo de regeneração a que o planeta pouco a pouco deu início. Somos todos seres do erro. De algum modo, se aqui estamos, não viemos para passar férias, mas para trabalhar tanto no labor do corpo quanto do espírito e esse trabalho se chama amar. Contudo, somos corajosos por nos propor a enfrentar, seja de modo individual ou coletivo, o desígnio que nós mesmos esperamos inconscientemente encontrar.

Nossos irmãos partiram primeiro porque assim o escolheram. Porque assim tiveram a coragem de enfrentar a prova, cara a cara, do mesmo modo como muitos de nós que ainda cá estamos aguardamos na expectativa da hora que nos chega.

Novamente digo, não nos cabe julgar quem quer que seja por suas mazelas cometidas no passado e no presente. Lembremo-nos apenas o sublime exemplo do glorioso e misericordioso mestre Jesus, que – diante da população enfurecida e armada de pedras –, com apenas um risco na areia, intercedeu pela pobre mulher que já se debatia sob o açoite dos golpes de pedras e palavras:

Parem irmãos! "quem nunca tiver pecado, que atire a próxima pedra"!

Eu sei, mas não devia

Eu sei, mas não devia





Marina Colasanti



Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.  Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
(1972)


Marina Colasanti Nasceu em Asmara, Etiópia. Morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.